Identificação e Perfil
Localizada no extremo norte do concelho de Lisboa, Carnide é uma das maiores freguesias da cidade, quer em extensão quer em população. Apesar de ser uma das mais antigas, só foi integrada no perímetro urbano em 1885.
Tradicionalmente rural, foi sendo progressivamente envolvida pelo crescimento urbano da capital, de forma acelerada e nem sempre uniforme. É, por isso, uma freguesia de contrastes — entre o velho e o novo, o antigo e o moderno, o urbano e o rural — com pequenas «ilhas» dispersas e desarticuladas funcional e urbanisticamente.
Os limites administrativos actuais foram estabelecidos em 1959, antes da intensificação do crescimento populacional, sobretudo a partir da década de setenta. A freguesia é hoje confinada a norte e noroeste pelos limites do próprio concelho e a sul pela Av. General Norton de Matos (Segunda Circular).
Marcada por sucessivas sedimentações históricas e culturais, Carnide tem um perfil próprio, identificado no seu património e nas vivências sociais que importa preservar e valorizar — na medida em que podem estruturar e referenciar a própria imagem urbana e a vida contemporânea.
Raízes Históricas
O povoamento de toda a vasta zona a norte do termo de Lisboa até Odivelas data de épocas recuadas, anteriores à romanização. Para além de vestígios de uma ocupação dispersa durante o neolítico, formaram-se alguns povoados de pequena dimensão, rapidamente absorvidos pela cultura e economia romanas. Foi a partir do séc. I que se organizou sistematicamente o território, com explorações agrícolas sob a forma de vilas rústicas — algumas grandes propriedades com casa senhorial e todo o equipamento necessário, desde os estábulos aos lagares.
Durante o domínio muçulmano, entre os séculos VIII e XII, intensificou-se a ocupação com a consolidação de pequenos casais e o desenvolvimento das hortas e pomares. A região era considerada o celeiro de Lisboa. À data da conquista da cidade, era já significativo o número de moradores locais; cristãos e muçulmanos acabaram por se fundir em pouco tempo, eliminando diferenças religiosas e culturais.
No século XIII procedeu-se à organização religiosa e administrativa, com a formação de uma vasta paróquia rural, por volta de 1279. É também nesta época que o topónimo Carnide se generaliza — certamente de origem mais antiga (celta, latina ou muçulmana) — ligado à unidade paroquial. Num documento de partilhas datado de 1308, a expressão «sítio de Carnide» e o topónimo «Carnedi» ou «Carnyde» aplicam-se à área da paróquia que englobava também a Pontinha e o Casal Falcão e se estendia até aos limites de Odivelas.
O século XIV corresponde à construção da Igreja de São Lourenço, a partir de 1342, em local ermo aproximadamente no centro geográfico do território. Foram os reis e a Ordem de Cister os principais donatários de propriedades em Carnide. Uma ermida do Espírito Santo, com pequena gafaria anexa, é referida em documentos dos séculos XIII e XIV, e os marítimos — devotos do Espírito Santo — deram início em 1437 à procissão anual do Sírio do Cabo à pequena ermida local.
Os bons ares de Carnide eram famosos e muitos fidalgos aqui vieram recuperar das campanhas militares de conquista do Norte de África no reinado de D. Afonso V. O próprio rei, que em 1442 fez doações de terras no sítio de Carnide, aqui terá residido temporariamente, assim como D. João II, que enviou uma carta ao barão de Alvito, datada de 24 de Março de 1462, assinada em Carnide.
Arquivo Municipal de Lisboa — AML-AH, Casa de Santo António, Livro 1.º do hospital de S. Lázaro, doc. 5, f. 11.
AML-AH, PT/AMLSB/CMLSBAH/CSA/001/0066/0005
AML-AH, Chancelaria Régia, Livro dos Pregos, doc. 297, f. 209v.
A Feira da Luz
Ligada à tradicional romaria que se realizava anualmente, em Setembro, no Santuário de Nossa Senhora da Luz, a feira era complemento das festividades religiosas que duravam vários dias, atraindo numerosos forasteiros da capital e arredores. Embora remonte, certamente, à Idade Média, foi durante os séculos XVI e XVII que começou a adquirir maior projecção.
A romaria da Luz era muito concorrida. Participavam várias confrarias de marítimos com os seus estandartes, devoção que já vinha da antiga ermida do Espírito Santo desde 1437. Numa área essencialmente rural, os principais devotos eram os trabalhadores rurais de toda a zona norte do termo de Lisboa e até os saloios de Mafra e Sintra — por isso as festividades e a feira passaram a realizar-se em Setembro, no final das colheitas de verão.
Toda a nobreza em veraneio nas quintas do Lumiar, Benfica e Carnide participava ou fazia-se representar. Os reis D. João III e D. João VI e as rainhas D. Catarina e D. Carlota Joaquina eram devotos e romeiros fervorosos. No cortejo, a imagem de Nossa Senhora era levada numa berlinda real, acompanhada por dois coches com os reis. Esta ligação à corte era antiga — já D. Afonso V fizera parte da Confraria da Luz.
No início, a feira era integrada nas festividades religiosas, com barracas de comes e bebes, vendedores de medalhas, rosários e objectos religiosos. Pouco a pouco surgiram os louceiros, vendedores de fruta, cesteiros e negociantes de gado. Em 1881, por regulamento camarário, a feira passou de três para cinco dias, com mercado de gado de 8 a 11 de Setembro.
As barracas agrupavam-se no Largo da Luz, com corridas de bicicletas, jogos, fantoches e teatro de rua. Os petiscos eram famosos — nomeadamente as farturas. Figuras célebres da boémia lisboeta frequentavam a feira da Luz, especialmente o Conde Vimioso que, segundo a tradição, se fazia acompanhar pela Severa.
Com a inauguração do elevador de S. Sebastião da Pedreira em 1899 e, posteriormente, com a linha de eléctricos que em 1929 ligava os Restauradores a Carnide, o acesso ficou mais fácil e a feira prolongou-se desde o primeiro sábado até ao último domingo de Setembro.
Achados Arqueológicos em Carnide
Os trabalhos arqueológicos no Largo do Coreto de Carnide, desenvolvidos desde 5 de Março de 2012, decorreram das obras de requalificação paisagística do Largo e ruas adjacentes (Rua Neves Costa, Rua do Machado, Travessas do Machado e do Largo do Jogo da Bola), sob a direcção dos arqueólogos do Serviço de Arqueologia do Museu da Cidade.
O Plano Director Municipal de Lisboa coloca todo o núcleo histórico de Carnide em área de sensibilidade arqueológica de nível 2, o que significa que qualquer remeximento no subsolo dessa área tem de ser acompanhado por uma equipa de arqueologia. No núcleo antigo de Carnide, os achados são muito expectáveis: o topónimo já era utilizado nos finais do século XII, e há referências a uma igreja dedicada a São Lourenço com cemitério, uma fonte, «covas», um «rocio» e, no «Alto do Poço» (actual Largo do Coreto), uma ermida do Espírito Santo com outro cemitério e uma leprosaria.
- 120 silos medievais — estruturas escavadas no subsolo para armazenamento de cereais (as «covas» das fontes arquivísticas), transformados em lixeira subterrânea durante os séculos XVI–XVIII e por isso ricos em materiais: cerâmica, faiança, porcelana chinesa, vidros de Murano, moedas, ossos e espinhas.
- Um poço em pedra — cerca de 12 metros de profundidade, cheio de água (em ano de seca!), talvez o que justificava o topónimo «Alto do Poço». A descoberta levou ao desvio da vala de saneamento para preservar a estrutura.
- Troço de alicerce e dez enterramentos — vestígios provavelmente da Ermida do Espírito Santo e do seu cemitério, demolida pela Câmara Municipal de Belém entre 1857 e 1858.
- Marcas da terraplanagem de 1857–1858 — que transformou o «Alto do Poço» no actual Largo do Coreto, muito bem documentadas arqueologicamente.
Os materiais apontam para cronologias do século XV ao XVII — o período em que os silos deixaram de ser local de armazenamento para funcionar como lixeiras. A diferenciação social é visível nos achados: apenas os mais privilegiados, instalados em palacetes e quintas a partir do século XVI, possuiriam porcelanas chinesas ou vidros italianos.
O Conjunto Carnide-Luz
O centro agregador da freguesia continua associado aos dois núcleos históricos mais sedimentados — Carnide e Luz — que, apesar de configurações espaciais diferenciadas, são componentes de um mesmo conjunto histórico.
O núcleo de Carnide constitui um caso exemplar de estrutura espacial ordenada em função da antiga Rua Direita (actual Rua Neves Costa), que se fez coincidir com a Estrada da Pontinha. O conjunto construído desenvolve-se a norte desta rua com base num traçado ordenado de ruas paralelas cortadas por pequenas travessas, numa ortogonalidade empírica mas quase perfeita — modelo comum em muitos aglomerados portugueses dos séculos XVI e XVII.
Ao longo das ruas principais (Rua do Norte, Rua da Mestra, Rua das Parreiras, Rua do Pregoeiro) erguem-se habitações simples com fachadas de um ou dois pisos. Nos interiores revelam-se o requinte da decoração e da ornamentação que as severas fachadas e altos muros escondem. A escala do conjunto mantém-se hoje inalterável e só a envolvente tem vindo a mudar.
No alto do Poço, a Rua Direita alarga-se para dar lugar a um espaço irregular onde inicialmente se realizou um pequeno mercado de hortícolas e, mais tarde, se construiu o coreto — dando-lhe uma fisionomia mais urbana. É este o espaço público mais importante do núcleo histórico. No princípio do século XX, aqui se construiu o edifício do Carnide Clube (1920) e alguns edifícios com fachadas mais eruditas.
A Luz pode ser considerada uma unidade com história própria, entre o Largo da Luz e ao longo da Rua da Fonte, formada por elementos singulares unificados pelos grandes espaços públicos e pela via de circulação. Os elementos que contribuem para a sua imagem patrimonial são mais dispersos mas também mais monumentais.
Património Edificado
Para além do conjunto Carnide-Luz, o património edificado encontra-se disperso pelo que resta das antigas quintas, ao longo de azinhagas e caminhos. Muitos destes edifícios, com o seu recheio artístico e equipamentos agrícolas, já desapareceram ou encontram-se ameaçados pelo processo de urbanização recente. Em muitos casos, só a toponímia antiga prevalece, perpetuando e evocando memórias históricas.
Igreja da Luz
Do antigo Santuário, mandado construir pela Infanta Dona Maria no século XVI, resta hoje apenas a capela-mor e o transepto. O terramoto de 1755 atingiu profundamente o vasto templo e demais dependências, que nunca mais foram reconstruídas. O que restava da grandiosa fachada foi totalmente destruído em 1833, e só em 1870 foi construída a actual ilharga sul. Os restauros do interior, iniciados em 1890 e orientados pelo arquitecto Valentim José Correia, permitiram conservar a parte mais importante do templo.
A Igreja foi projectada por Jerónimo de Ruão em 1575 e terminada em 1596 — um vasto templo maneirista de influência italiana, com fachada monumental. O grande retábulo maneirista, pintado em 1590 por Francisco Venegas e Diogo Teixeira, introduziu em Portugal um novo tipo de composição de retábulos. A capela-mor e o túmulo da Infanta Dona Maria foram classificados monumentos nacionais, respectivamente em 1910 e 1923. A partir de 1918, a Igreja passou a sede da paróquia de Carnide, em substituição da de S. Lourenço.
Igreja de S. Lourenço
Antiga sede da grande paróquia rural, abre-se sobre o adro murado, no extremo ocidental do núcleo histórico de Carnide. A primitiva igreja, construída em 1342 com cemitério anexo, sofreu obras de renovação em 1572. O terramoto de 1755 deixou-a muito arruinada e teve de ser reconstruída. Do final do século XVII e início do século XVIII conservam-se painéis de azulejos, alguns atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes. As obras só terminaram em 1808.
Convento de Santa Teresa
Situado na Rua do Norte, fundado em 1642 pela Infanta Dona Micaela para freiras carmelitas descalças. Grande complexo arquitectónico com claustro, igreja de uma só nave e dependências rurais numa grande propriedade. A fachada é sóbria, mas os interiores apresentam pinturas atribuídas a Inácio Oliveira Bernardes e a José da Costa Carneiro, e painéis de azulejos polícromos dos séculos XVII e XVIII. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, permaneceu como recolhimento religioso até à morte da última freira em 1881. Actualmente funciona como lar da terceira idade.
Convento de S. João da Cruz
Fundado em 1681 para padres carmelitas a norte do actual Largo da Luz. Era um grande edifício que chegou a abrigar 600 moradores entre professores e trabalhadores. Actualmente instala o Instituto Adolfo Coelho. Era também conhecido por Convento do Carmo de Carnide.
Antigo Hospital da Luz e Colégio Militar
No sítio do antigo hospital mandado construir para apoio aos peregrinos do santuário no século XVI, ergue-se hoje o Colégio Militar, instalado no início do século XIX. A construção do hospital foi custeada pela Infanta Dona Maria, que deixou em testamento bens e rendas para a sua manutenção. Inaugurado em 1618, com uma capela de Nossa Senhora dos Prazeres, substituiu a antiga gafaria medieval. O actual edifício tem fachada clássica de três pisos com corpo central rematado por frontão triangular.
As Quintas
As quintas mais importantes distribuíam-se ao longo das Estradas da Luz, Correia e Pontinha. Construídas nos séculos XVII e XVIII, incluem a dos Condes de Carnide, a das Pimenteiras (actual edifício da Junta de Freguesia), a de Santo António (identificada pelo registo de azulejos datado de 1742 no acesso pela Azinhaga da Fonte), a da Luz, a dos Azulejos e a das Barradas (datada de 1747). No século XIX, a sua fisionomia arquitectónica modificou-se, apresentando referências mais urbanas, como no caso do palacete do Largo da Luz, actualmente dos franciscanos.
Galeria de Documentos Históricos
Uma selecção de documentos e imagens de arquivo que ilustram a história de Carnide ao longo dos séculos.
Fundação Mário Soares / DBG — Documentos Bernardino Machado. hdl.handle.net/11002/fms_dc_103353
Fundação Mário Soares / DFL — Documentos Felicidade Alves. casacomum.org
Fundação Mário Soares / DFL — Documentos Felicidade Alves.